
Aprenda como equilibrar opinião do arquiteto e gosto do cliente na gestão de projetos, evitando erros em acabamentos, mobiliário e escolhas de loja.
Esse tema é, no mínimo, polêmico. Na prática da arquitetura de interiores, todo mundo já passou por aquela situação em que o cliente se apaixona por algo que, para nós, simplesmente não tem nada a ver com o projeto. E aí surge a pergunta: até onde vai a opinião do arquiteto e onde entra o gosto do cliente?
Ao longo deste texto, nós vamos compartilhar casos reais, perrengues de obra e estratégias que usamos no dia a dia para equilibrar a opinião do arquiteto e o gosto do cliente dentro da gestão de projetos de arquitetura. A ideia é refletir, mas também trazer soluções práticas para você aplicar agora com seus clientes.
Opinião do arquiteto x gosto do cliente: onde não existe discussão
Antes de falar de estética, a gente precisa separar bem o que é gosto e o que é técnica. Quando falamos de funcionalidade e questões técnicas, não existe “acho que” ou “em minha opinião”. Aí não é sobre gosto do cliente, é sobre o que funciona ou não funciona.
Medida, circulação, ergonomia, viabilidade de execução, normas: isso é ciência exata. Se a passagem vai ficar apertada, se o móvel não cabe, se o revestimento é escorregadio para piso de banheiro, não é algo que a gente possa tratar como subjetivo. Nesse ponto, o cliente até pode insistir, mas a nossa responsabilidade profissional fala mais alto.
Registrando decisões técnicas: o poder do e-mail
Uma ferramenta simples, mas extremamente poderosa na gestão de projetos de arquitetura, é registrar por escrito quando o cliente insiste em algo que sabemos que não vai funcionar.
Quando o cliente quer sair do que é certo para o que é errado tecnicamente, nós fazemos o seguinte:
Explicamos com calma, verbalmente, por que aquela solução não é adequada;
Se o cliente insiste, registramos por e-mail a nossa recomendação técnica;
Deixamos claro que ele está assumindo a responsabilidade caso queira seguir contra a orientação profissional.
Na maioria dos casos, quando o cliente percebe que aquela decisão “estranha” vai ficar documentada e que ele estará assumindo o risco, ele repensa. Isso é como direcionar o cliente na arquitetura sem conflito direto, usando a própria responsabilidade como fator de reflexão.
Quando o assunto é gosto: não existe certo ou errado, mas existe contexto
Saindo da esfera técnica, entramos no universo do gosto. E aí, sim, entra o grande dilema: o cliente nos contrata justamente porque confia no nosso olhar, mas, ao mesmo tempo, tem seus desejos, referências e paixões à primeira vista.
Nós estudamos composição, estética, proporção e contexto. Então, quando falamos de opinião do arquiteto e gosto do cliente, o nosso papel não é impor, mas direcionar. E isso inclui ter coragem de dizer: “Olha, isso não vai ficar legal, não conversa com o restante do projeto, está datado ou simplesmente não se usa mais assim.”
Ao longo do tempo, a gente perde aquele medo de ser “chato” e passa a entender que estamos sendo pagos para dizer o que precisamos dizer, e não o que o cliente quer ouvir. Com educação, claro, mas com firmeza.
Ser educado não é ser omisso
Existe uma diferença enorme entre ser gentil e ser omisso. Podemos falar com todo cuidado do mundo, mas não podemos deixar de falar. Quando abrimos mão da nossa opinião profissional, abrimos mão também do nosso valor.
Se o cliente nos contratou, é porque ele espera que a gente defenda o conceito, o contexto do projeto e o resultado final. É assim que fortalecemos o relacionamento com o cliente na arquitetura: sendo honestos, coerentes e presentes nas decisões.
Casos reais: quando o gosto do cliente “não tem nada a ver”
Para ilustrar melhor esse equilíbrio entre opinião do arquiteto e gosto do cliente, vamos compartilhar alguns casos reais que vivemos em obra e nas visitas em loja. São situações que, com certeza, você vai se identificar.
A poltrona que não tinha nada a ver com o projeto
Em um dos nossos projetos, o cliente decidiu fazer sozinho a visita de mobiliário em um final de semana. Nós até indicamos a loja e os vendedores, mas, por agenda, não conseguimos acompanhar.
Resultado: eles escolheram uma poltrona que não tinha absolutamente nada a ver com o projeto. O sofá estava lindo, as cadeiras estavam alinhadas com o conceito, mas a poltrona destoava totalmente – em tamanho, estilo e tecido.
Quando recebemos a mensagem: “Compramos essa poltrona”, bateu aquele mini desespero. Eles não estavam pedindo opinião, já tinham comprado. A loja não era tão parceira, então também não tivemos o filtro prévio do vendedor mandando uma mensagem para validar as escolhas.
O que nós fizemos?
Abrimos o 3D do projeto;
Colocamos a poltrona nas proporções reais dentro da cena;
Gravamos um áudio educado, mas firme, explicando que a peça estava fora de escala e fora de contexto;
Oferecemos ajuda para tentar trocar a peça na loja, já que o pedido ainda estava no início do processo.
Nós deixamos claro que não era uma questão de ser bonita ou feia. Era uma questão de composição. A poltrona era pesada para aquele ambiente, não dialogava com os outros elementos e comprometia a leitura do projeto.
No fim, a cliente assumiu que amava a poltrona e decidiu ficar com ela, talvez levando para o consultório dela e esperando tudo chegar para avaliar no espaço. Não era o desfecho que gostaríamos? Não. Mas o nosso papel foi cumprido: orientar, argumentar e mostrar o impacto daquela escolha.
Banheiro cromado com chuveiro preto: o contraste que não funciona
Outro caso clássico de escolha de acabamentos e mobiliário desconectada do projeto: a cliente recebeu o banheiro da construtora com metais cromados – registros, torneiras, box, tudo em cromado. O acabamento era bonito, coerente e já fazia sentido com o restante.
Depois, empolgada com a onda do preto, ela foi sozinha à loja e comprou um chuveiro preto e acessórios de toalha também em preto. Quando vimos a foto, a combinação era aquela do famoso “não tem nada a ver”.
Cromado para um lado, preto para o outro, sem intenção, sem repetição, sem conceito. Não era um contraste pensado, era uma mistura. E aí, de novo, entramos com a nossa função:
Mostramos que não se usa mesclar acabamentos desse jeito, sem critério;
Explicamos que ou trocamos tudo para preto ou mantemos tudo no cromado;
Reforçamos que consistência é fundamental para o projeto ficar elegante.
A cliente reconheceu que se empolgou na vibe do preto e nem percebeu o conflito de acabamentos. E isso acontece muito: o cliente se apaixona por uma tendência, mas não consegue avaliar o conjunto. É aí que entra a importância de como direcionar o cliente na arquitetura.
Argumentos que vão além do “eu não gosto”
Na hora de opinar, é importante não basear tudo apenas no “eu acho feio” ou “eu não gosto”. O cliente tem o direito de gostar de brilho, textura, 3D, cores fortes… mas nosso papel é mostrar os impactos dessa escolha.
Revestimentos 3D e com brilho
Alguns exemplos práticos:
Revestimento 3D: pode ficar com emendas estranhas dependendo do sentido da paginação. Isso é argumento técnico e visual, não apenas gosto.
Revestimento com brilho: além de datar mais rápido em alguns casos, pode gerar desconforto visual pelo excesso de reflexo.
Piso com brilho em banheiro: aumenta o risco de escorregamento, principalmente em áreas molhadas.
Nós até temos projetos com revestimento brilhante, porque alguns clientes realmente amam esse tipo de acabamento. E tudo bem. Quando o cliente está muito decidido, nós fazemos ajustes:
Usamos piso acetinado e deixamos o brilho somente na parede;
Equilibramos com outros materiais mais neutros para não pesar o ambiente;
Limitamos o uso do brilho a um ponto focal específico.
Assim, mostramos que respeitamos o gosto do cliente, mas sem abandonar nosso papel de curadoria estética e técnica dentro da gestão de projetos de arquitetura.
A importância do acompanhamento em loja
Um dos pontos-chave para evitar esses desencontros entre opinião do arquiteto e gosto do cliente é o acompanhamento em loja com arquiteto. Quando estamos presentes nas escolhas, conseguimos direcionar na hora, antes da compra ser fechada.
Por que o acompanhamento reduz erros?
Quando acompanhamos as visitas de revestimentos, metais e iluminação, geralmente isso acontece mais cedo, junto com o projeto executivo. Nessa fase, o cliente entende que essas compras são urgentes para a obra, então tende a respeitar mais o cronograma e o nosso acompanhamento.
Já com móveis soltos – sofá, poltrona, cadeiras, mesa – muitos clientes deixam para depois. A obra está correndo, o foco é outro, e essas decisões vão sendo empurradas para o final. É aí que o risco aumenta:
O cliente aproveita uma promoção de final de semana sem consultar o arquiteto;
Vai à loja sozinho e se encanta por uma peça isolada;
Compra pela internet algo que nunca foi testado em proporção ou conforto.
Quando visitamos a loja junto com o cliente, conseguimos:
Comparar as peças olhando o conjunto do projeto;
Verificar medidas, escala e conforto;
Evitar que o consultor de vendas direcione o cliente para algo que não faz sentido;
Reforçar nosso papel dentro da gestão de projetos de arquitetura.
Parcerias com lojas: aliadas na coerência do projeto
Ter lojas parceiras faz toda a diferença no relacionamento com o cliente na arquitetura. Em muitos casos, quando o cliente aparece na loja sem avisar, o próprio vendedor nos manda mensagem:
“Seu cliente veio aqui, viu essas peças, você aprova?”.
Esse tipo de parceria ajuda a:
Evitar compras que fujam totalmente do conceito;
Garantir que medidas e proporções estejam corretas;
Manter o projeto coerente, mesmo quando não estamos fisicamente presentes.
Se você ainda não tem esse tipo de parceria, vale a pena construir. Você pode, por exemplo, indicar algumas lojas de confiança e combinar com os vendedores um procedimento padrão de validação.
Gerindo expectativas sem ser oito ou oitenta
Também é importante entender que nem tudo precisa ser milimetricamente perfeito. A vida real não é um render estático. A casa é do cliente, ele vai morar ali, e alguns desvios pontuais fazem parte.
Nosso objetivo não é transformar o cliente em espectador passivo do projeto, mas conduzi-lo para um resultado equilibrado. Em alguns pontos, abrimos espaço para o gosto pessoal dele; em outros, defendemos com firmeza o conceito do projeto.
Até onde ir na defesa do projeto?
Nós temos uma frase que guia muito a nossa postura:
“A gente não é pago para falar o que o cliente quer escutar. A gente é pago para falar o que a gente tem que falar.”
Isso também significa:
Defender o contexto do projeto quando uma escolha ameaça descaracterizá-lo;
Argumentar com base em técnica, funcionalidade e composição;
Assumir a responsabilidade como profissionais, inclusive registrando por escrito quando necessário.
Ao mesmo tempo, reconhecemos que a casa é do cliente: é ele que paga, que vive, que convive com as escolhas no dia a dia. Quando, depois de ouvir nossos argumentos, ele decide seguir com um desejo muito específico, nós fazemos o possível para amenizar impactos e integrar essa escolha ao projeto.
Como deixar o cliente menos “solto” sem ser controlador
Uma estratégia que temos adotado é antecipar as visitas às lojas, principalmente de móveis. Mesmo que o cliente não vá comprar tudo naquele momento, já vamos criando desejo, amarrando escolhas e deixando tudo mais encaminhado.
Isso traz alguns benefícios:
O cliente entende que as peças fazem parte de um contexto maior;
Ele percebe a importância do nosso olhar na hora da compra;
Ele pensa duas vezes antes de sair comprando sozinho sem consultar.
Na prática, isso é como direcionar o cliente na arquitetura antes dele se perder nas infinitas opções do mercado. Deixá-lo completamente solto é uma escolha arriscada, tanto para o resultado final quanto para a nossa imagem profissional.
Conclusão
Equilibrar opinião do arquiteto e gosto do cliente é uma arte que mistura técnica, psicologia, comunicação e muita paciência. Não existe uma fórmula pronta, mas alguns princípios ajudam muito:
Questões técnicas e de funcionalidade não são negociáveis;
Quando o cliente insiste em algo tecnicamente errado, registre por escrito;
Na estética, use argumentos de contexto, escala, manutenção e segurança;
Faça acompanhamento em loja com arquiteto sempre que possível;
Construa parcerias com lojas que respeitem e validem seu trabalho;
Lembre sempre: você é pago para falar o que precisa ser dito, não apenas para concordar.
No fim das contas, o nosso objetivo na gestão de projetos de arquitetura é entregar um resultado que faça sentido para o cliente e que, ao mesmo tempo, reflita o nosso trabalho com coerência e qualidade. Quando conseguimos isso, fortalecemos o relacionamento, geramos indicações e construímos uma marca sólida no mercado.
Agora queremos ouvir você: quais foram os maiores “perrengues” que você já viveu na hora de conciliar o gosto do cliente com o projeto? Compartilha nos comentários as histórias mais inusitadas que já apareceram por aí. E se você conhece algum colega arquiteto que passa pelos mesmos dilemas, envie esse conteúdo para ele também.






